Mais de 500 candidatos participam de seletiva para o Bolshoi em Joinville

Depois de dois dias viajando de ônibus, Marcos Vinicius Gazola dos Santos, 11 anos, desembarcou na rodoviária de Joinville. Acompanhado pela mãe, o garoto de sardas no rosto e sorriso atento encarou o trajeto de quase 2.500 quilômetros como primeiro desafio na realização de um sonho. O destino da jornada simboliza o reconhecimento de um desejo cultivado com suor e bravura: tornar-se um bailarino da Escola de Teatro Bolshoi no Brasil.

Há quatro anos, a família de Marcos morava em uma fazenda no estado do Mato Grosso. No local, em meio aos trabalhos no campo, a irmã, Victoria, rodopiava no quarto os seus primeiros passos de balé. Curiosamente, o menino acompanhava cada ensaio da irmã. Os poucos, o fascínio pela dança foi se transformando em paixão. A família saiu da área rural e decidiu se mudar para Ipiranga do Norte, onde o desejo de Victoria de ser bailarina poderia se tornar realidade. O que a mãe não sabia era que o caçula também ansiava por uma chance de ingressar na dança.

Com a mudança, o garoto começou a insistir com a mãe que o deixasse começar a aprender balé em um projeto social da cidade.

— Ele queria participar de um projeto de dança na cidade, mas sabe como é cidade pequena, né? As pessoas têm muito preconceito com os meninos bailarinos. Depois de muita conversa, e como vimos que era o que ele realmente queria, eu e meu marido deixamos ele participar — conta a mãe, Rosana Batista Vasconcelos Gazola.

Professora da rede estadual, Rosana passou a realizar projetos na escola para desmistificar o preconceito acerca de garotos no balé. A empreitada funcionou. Além de Marcos, mais três meninos da unidade escolar começaram a ensaiar no grupo. A escola do Bolshoi fazia a pré-seleção de novos alunos em uma cidade próxima e Marcos esteve presente desde que começou na dança, mas somente como espectador.

 – Ele era muito novinho, não teria como participar. Mas, em janeiro deste ano, o Marcos olhou para mim e disse: mãe, arruma meus documentos que esse ano eu vou entrar para o Bolshoi. Eu não tive como dizer não para o sonho dele.

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Em 2017, a escola realizou 17 pré-seleções à caça de talentos em todo o país. Cerca de 2.400 crianças se inscreveram para a etapa, disputando as 40 vagas – 20 para meninas e 20 para meninos – da primeira série. O montante significa uma relação de 60 candidatos para uma única vaga. As posições para as demais séries são preenchidas conforme idade, nível técnico e disponibilidade nas turmas já existentes. Depois de pré-aprovado na cidade de Sinop-MT, a mãe e a professora do garoto começaram a arrecadar dinheiro para trazê-lo a Joinville, já que o pai de Marcos está desempregado.

A venda de pastéis e a organização de eventos gastronômicos garantiram as passagens de ônibus e a estadia do menino, a mãe e a professora de durante o período de seleção. A seletiva, que iniciou nesta sexta-feira, ocorre também no fim de semana. Os candidatos enfrentam uma série de avaliações com médico fisioterapeutas, para medir postura, estrutura corporal e percentual de massa corpórea.

 JOINVILLE,SC,BRASIL,20-10-2017.Audição nacional da Escola Bolshoi.(Foto:Salmo Duarte/A Notícia)

Ao todo, 582 candidatos participal da seleção nacional para ingressar na unidade brasileira do Bolshoi Foto: Salmo Duarte / A Notícia
 

Os candidatos também testam sua capacidade motora, força e articulações por meio do teste postural específico. Os exercícios incluem capacidade de abertura da perna na posição ‘borboleta’ e saltar o mais alto possível com os pés juntos. Além disso, professores de dança e de música analisam as habilidades técnicas e artísticas, musicalidade, projeção cênica e também o desempenho intelectual. Os aprovados iniciam os estudos no Bolshoi em 2018.

Sentado com as pernas cruzadas, Marcos aguardava a vez de mostrar a sua aptidão para os exercícios. Ele acompanhava o movimento dos outros jovens candidatos nas barras. Volta e meia, roía uma das unhas ou balançava ansiosamente as pernas. Questionado sobre o nervosismo antes do teste, Marcos expressou determinação.

— É um sonho estar aqui, mas pra isso eu tenho que ter confiança e coragem — assegura o menino que deseja, além de se tornar bailarino, ser professor de balé, jazz e danças urbanas.

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Vídeos para ensinar balé

 A Escola do Teatro Bolshoi no Brasil recebeu 582 candidatos vindos de 20 estados brasileiros, da Argentina e da Rússia. A escola é a única extensão do Teatro Bolshoi no mundo, por isso, muitas crianças e adolescentes sonham em estudar na unidade. 

Com os cabelos presos em um coque estilizado, Dayra Brisa Vasconcelos, nove anos, veio de Brasília, no Distrito Federal, para tentar a chance de entrar na escola.

 JOINVILLE,SC,BRASIL,20-10-2017.Audição nacional da Escola Bolshoi.Dayra Brisa Vasconcelos Diniz.(Foto:Salmo Duarte/A Notícia)

A pequena Dayra aprendeu a dançar copiando movimentos de vídeos de balé na internet Foto: Salmo Duarte / A Notícia
 

A roupa e penteado foram confeccionados pela mãe, Francinete Vascondelos. Foi dela também o primeiro incentivo para a menina começar a se aventurar entre pliés frappés. Sem condições financeiras para pagar aulas de balé para a filha, as sessões aconteciam na sala da residência da família, usando vídeos da internet como “professor”.

— A Dayra dança todos os dias com ajuda dos vídeos, eu auxilio ela a fazer as posições corretas. Tem uma professora que ajuda também. Eu filmo a minha filha e mando os vídeos para ela pelo ‘zap’, aí ela diz se tá certo e o que tem que melhorar — garante.  

A mãe corre atrás de apoio para ajudar a menina a realizar o sonho de ser bailarina. Por meio de uma reportagem em um jornal, as duas ganharam as passagens para Joinville e o valor para a estadia. Se o sonho de ser bailarino se tornar realidade, a escola oferece aos aprovados bolsa integral para estudar na instituição, que inclui: transporte, uniformes, figurinos, assistência social, orientação pedagógica, assistência odontológica preventiva, atendimento fisioterápico, nutricional e assistência médica de emergência/urgência pré-hospitalar.

Fonte: ANotícia

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